Friday, June 5

De lá pra cá?



Era desajustada. Tropeçava nas próprias pernas. As calças eram curtas e o cabelo desgrenhado. Algumas espinhas aparentes, óculos que não embelezavam e um coração envolto por camadas "inatravessáveis" (ainda que a expressão não exista, porque gostava de inventá-las).

Já amava as palavras, mas ainda era um sentimento involuntário. Depois, em contato direto com regras e formalidade, instalou-se o medo. Havia um universo capitalista regido pela disputa. De homens gigantes com passos largos, medonhos.

Escondeu-se debaixo da cama, estava muito assustada. Era presa fácil na terra de vilões. Chorou pouco tempo... Até resolver caçar também. Passou meses questionando o sistema... E não chegou a qualquer lugar.

Colocou as mãos na cintura, bateu o pé, franziu o cenho, viu que não estava onde planejara, apenas imitava a maioria – era arrastada diariamente pelo tempo.

Resolveu lutar contra a maré... Virou um peixe solitário, mas estava acompanhada por outras sardinhas e golfinhos que também nadavam sozinhos.

Na areia da praia, viu que o mar era uma miragem e estivera numa poça de lama – não havia oceano algum! E já crescera tão mais! O mundo ficou pequenininho, os monstros eram menores ainda, suas vozes inaudíveis.

A paciência foi o único verdadeiro preço pelo qual teve que pagar... Então, concluiu que nada realmente mudou no mundo, nas poças, nos vilões ou golfinhos... Seus mais profundos desejos é que cresceram demais... E absolutamente nada seria capaz de limita a realização deles.



Lara Fabian - qualquer música! AMO!
Venci um concurso de fotografia!

Thursday, May 28

Adormecendo...


Estou escutando a chuva lá fora... Imaginando pingos d'água se espatifando na saliência do mundo. Encaro o teto branco no escuro do quarto pouco iluminado e, sabendo que respirar é uma atividade involuntária, não me preocupo.

Então, recostada na minha cama, desapareço.

Parte de mim se desprende da escravidão racional. Meu inconsciente é sedutor, me droga, grita em silêncio, machuca sem dor, brilha sem luz.

Estou no devaneio. Aquela infinita gama possível. Me cega, me aprisiona de qualquer certeza, me enche de relativismo.

O terceiro estágio é faceiro porque você volta. A gente sempre retorna. Sabe dizer como foi, como atravessou a lógica e alcançou o inconsciente. Mas não entende como reverteu o processo.

E nem dá... Não racionalmente.

Você pode continuar tentando descobrir... Ou lembrar que a chuva parou, seu teto nem é tão contemplável assim e dormir parece uma ótima idéia... Ainda que não seja.



Ainda com Dancing - Elisa.

Friday, May 15

Filosofia da cortina


Você já reparou no segredo inalcansável? Aquele que se movimenta através da cortina, no arcaico cinema de sombras projetadas pela cidade, depois da janela, no mundo, para você!

Atinge as suas possibilidades sensoriais e é especialmente inquietante, chegando no sexto (sétimo?) sentido, brincando de cores numa tela revestida com pinturas dos dias anteriores.

Magia! - Com olhos iluminados, brilhantes.

Alguém já deve ter dito que o sucesso de uma estrela depende do adeus todo poderoso do sol... E assim valorizaremos a cortina! Aquele pedaço de pano, fechado, escondendo a luz, fazendo charme, burlando o cotidiano.

É melhor que assistir tv, ora essa! Se você cansa do canal daquele recorte da vida real, você procura outro lugar, outra visão, outras ventanias! Muda a paisagem, felicita pingos de chuva cor-de-cócegas que respingam do parapeito direto para o seu sorriso.

Ah, o teatro da vida! "Da janela para o mundo"!

Aplaudir o canto dos pássaros, franzir o cenho quando escutar uma péssima regência da orquestra de um trânsito parado... Analisar esta caótica organização universal...

Parei. Decisão tomada pelo tempo - esse indeterminado tempo.

...

...

...

Hoje não abri a cortina para ver a peça do mundo! A cortina se abriu para que o mundo assista a minha estréia.



Para escrever o post: Alone At Night - The Curious Case of Benjamin Button Soundtrack; porém, tem uma música que não me canso de ouvir diariamente - e que gostaria que aproveitassem também. Se chama Dancing - Elisa.
Recado: e não era medo. Precisava desafiar minha própria capacidade. Não que seja uma coisa de "ohhh!", mas é realmente importante ser melhor do que si mesmo. Não que esteja tentando imitar minha própria criatividade. Ainda prefiro o que me é competente como base para ser melhor do que sou... e ter "criativóides" como servos de meu desafio. (Se a carapuça serviu...)

Monday, April 27

Desculpe, travesseiro!


Porque estou mentindo para você

Fiz o percurso de sempre – chequei as novidades, desliguei o computador, coloquei minha gata na caminha, organizei meu quarto, tomei banho, escovei os dentes, vesti o pijama, deitei, rezei, agradeci e pedi proteção às mesmas pessoas, apaguei a luz e fechei os olhos.

Mas eu não estou dormindo e continuo brincando de caleidoscópio com minhas pálpebras. Não tenho muita luz disponível, parece até que a noite ficou mais escura, e o meu azul é praticamente imperceptível.

O tempo parou de correr... Você percebeu, travesseiro?... É como se estivéssemos no instante do soluço deste universo... E até que tentei recorrer àqueles outros, para me proteger, mas eu não consegui sair do canto.

A minha personagem está sem respirar... Pode morrer?... ...Escrevi-lhe uma carta, mas também não consegui me expressar como de costume, e vi que ela chorou... Estou desesperada! Meu coração está completamente descontrolado, desejando que o mundo possa retroceder apenas alguns dias para que desfaça uma estupidez, mas eu ainda não tive sucesso.

Você tem aquela pílula? Da memória? Para lembrar-se de tudo que eu já disse, de tudo que é verdade, de tudo que ainda existe? E será que dá para acrescentar, inclusive, uma nova informação? Ah, sim, novíssima: meu inconsciente é nazista. Juro! Tem a tradição de querer descartar tudo que é imperfeito.

Estou falando sério, travesseiro, preciso me lembrar de parar com isso porque, qualquer dia desses, ainda vou me encontrar numa lata de lixo. Adivinha só? Eu – sou – humana! Tudo bem que minha cegonha interplanetária me largou no planeta errado, mas todas essa mania de perfeição acabará me aniquilando também.

Me lembre que jamais deverei descartar qualquer coisa, antes de tentar consertar. Porque sempre doerá muito mais, descobri tarde demais, que o defeito não estava naquilo que eu tinha, mas na minha ignorância de não saber usar.

...

Ah, que bom, o dia nasceu... ...Não da maneira correta, você sabe... Porque também não dormi. Meu corpo já não é o mesmo, também... Minha vista exausta, cheia de expectativa, elétrica e tensa, agora vai precisar encarar o mundo e continuar fingindo que está tudo bem... E que fotografias e sorrisos falsos são a promessa de um futuro bom.

Até mais tarde.


Chantal Kreviazuk - Blue
"Onde estava a inspiração? Aquele enlevo que o fazia levar consigo no bolso um caderno de esboços. Parou de andar. Deu de frente com um espelho inverso e se analisou. Viu aspectos que nunca imaginara, ângulos que certamente ficariam obscuros até o infinito do caixão."
Trecho do texto de Contra o Tédio, homenageando diversos blogs, inclusive - que bom! -, o Espelho Inverso! OBRIGADÃO - adoreeei!

Saturday, April 4

"What if it all means something?"


A Chantal Kreviazuk é uma cantora que tem diversas músicas tocadas no decorrer das temporadas da série Dawson's Creek. No mês passado, comecei uma maratona revendo todos os episódios em sequência. Aí, bem, dia desses resolvi baixar um álbum dela no computador. É pop e suave. Muito agradável...

Eis que, ouvindo essa coletânea de músicas com o título do post, me questionei sobre isso, de fato. Afinal de contas, "e se isso quiser dizer alguma coisa?". (Qualquer coisa!)

De repente, essa frase foi um grande problema durante anos. As coisas, pequenas coisas, aconteciam e sempre achei que teriam algum significado. O tal do "nada é por acaso"... Inclusive, não deve ter sido a toa que fiz o documentário sobre a Teoria do Caos para concluir minha graduação de Jornalismo. Eu acho que eu queria me provar que tudo tinha algum sentido.

E tem. Só que independe, não está procurando beneficiar qualquer pessoa. Então, e aí, no mês passado, mutei. É sério. Menos espectativas, certezas de mim e nada mais. Do que vou querer colher, do que vou desejar alcançar, das pessoas que tentarei manter, dos risos que vou escolher gargalhar, das lágrimas que vou selecionar e derramar... Vai depender de mim.

Mesmo assim, no final das contas, eu acho que, pensar que tudo poderia querer dizer alguma coisa grande e importante, como parcerias (que não caminharam), amizades perfeitas (que se acabaram), sonhos (que decepcionaram), viagens e lugares (que não brilham diferente no sol), etc, etc, etc, valeram e "quiseram dizer alguma coisa": que nem tudo na vida segue o rumo ou tem a importância que a gente resolve dar. Então, a melhor coisa de qualquer novidade aparente é: cautela e paciência.

A esperança é, de fato, a última que morre, mas ela não deve ser o primeiro sentimento no impacto da novidade. "Cautela e paciência".



What if it all means something? - Chantal Kreviazuk

Monday, March 23

Viagem


Cursor piscando (já devo ter dito isso alguma outra vez)... Mão no lábio inferior, uma respirada consistente de quem se recupera de tosses e nebulização. Livros.

Poucos livros porque não adianta: gosto de protegê-los e mantenho guardado os que já foram lidos, fora da visão de pessoas que pediriam emprestado, longe da poeira, para não perder o cheirinho de livro.

De volta para o computador. E alguma coisa parece ter sido escrita... Deve dar umas dez linhas... Pela brecha da porta entreaberta do quarto, uma transeunte atrapalha meu raciocínio vez ou outra, mas eu não pareço muito interessada no que diz e acho que já não lembro de suas palavras.

Inspiro. Uma música de fundo. O painel azul, cheio de estrelinhas e papeis que não deveriam estar lá. Gata na brecha da porta. Siamesa, curiosa e assustada. Orelhas arrebitadas. E some.

Pausa para ler o que foi escrito. E gosto. Acho que vou continuar... A música termina e uma melodia suave já está nos meus ouvidos... Vou embora.

O lago brilha e existe uma névoa que realça os raios do sol que atingem essa natureza verde. Poderia ter asas, mas ainda prefiro evitar mudanças. Estou ferida, machucada, mas pareço saudável. Meus olhos não conseguem abrir direito. Tento me levantar e o corpo inteiro dói, feridas ardem. Tenho ataduras, minhas vestes estão sujas de sangue e meus lábios ressecos.

Meu cabelo parece não saber o que é um pente há um bom tempo e descubro que não estou sozinha. Olhares diversos, olhares coloridos, olhares amáveis parecem felizes por estarem me vendo gemer.

Não consigo respirar fundo como antes e acho que alguém pronuncia alguma coisa sobre "costelas quebradas". Mesmo assim, já estou sentada, enchergo meus pés com certa dificuldade e não entendo nada a minha volta.

Um cheiro doce... e quente...



Eu não quero voltar.

Adeus.



Forgiven - é tudo que sei. Eu acho que essa trilha sonora que baixei é uma reunião de várias músicas de trilhas distintas. Foi graças a ela que o post saiu.

Saturday, March 21

Passaria


o resto da minha vida,
nessa inútil posição semi-catalepsia.

Um braço dobrado,
onde apoio a cabeça
e distancio o alcochoado.

O outro comprime a passagem do pensamento,
impede a visão do quarto escurecido,
estou quase vazia de sentimento.

O joelho esquerdo pressiona
a coxa direita
que não movimenta, nem impressiona.

Estou doente.
Morrendo?
Dormente!

Apague a luz,
porque não desejo
nem azuis.

Feche a porta
e não faça barulho
porque é pedaço de gente esse entulho.

Saturday, March 7

Desapego


Acho que estou insistindo na semente que rendeu uma antiga árvore de idéias e textos interessantes... mas já secou.

Cara, alguém simplesmente deixou de regar, parou de chover, esquentou o suficiente para que morresse porque eu também abandonei e nem senti - migrando para qualquer novo ambiente chuvoso e frio.

Não sei dizer... acho que tenho um jardim. Comecei devagarinho... cuidando de uma flor, duas, três, trinta... setenta... Para onde vamos com tudo isso? Eu tenho medo!

Receio grotesco de ter abandonado o terreno errado... Ou de estar cuidando de um canteiro que não seria aquele que me renderia o futuro que planejo. As palavras.

Eu também não sei mais por onde começar, onde desviar, o meu foco.

Talvez devesse correr em círculos, mesmo que pareça que já estou fazendo isso... Uma hora vazarei.



2005 Battlestar Galactica Season One. Recomendo!

Friday, March 6

Reparar arestas


Tenho sonhado, constantemente, que posso voltar a estudar no colégio onde passei boa parte da minha vida. Não tenho os mesmos amigos e o tempo é atual, mas me fora concedida uma oportunidade para reparar arestas do conhecimento que deixei passar...

Às vezes acho que está intencionalmente ligado a minha insegurança. O medo de errar, a vontade de aprender alguma coisa por completo, o desejo de dominar qualquer assunto, de ser boa em alguma coisa. Responder perguntas, estar firme e confiante.

N'outros momentos, parece que não desejo crescer (mas eu desejo!), ou, talvez, tenha feito uma universidade com tanto fervor que ache importante voltar atrás para reparar buracos do meu conhecimento básico.

Nada disso, tudo isso... estou como uma velha, dizendo como tudo poderia ser diferente se a consciência de agora já existisse no tempo do passado... praticamente querendo prever o futuro.

No sonho, me enfiar numa farda escolar, trazer diversos livros na bolsa, seguir regras, usar tênis e meia, acordar às 6h30, ouvir o soar o tempo para trocar de Matemática pelo Português... é melhor do que ganhar na loteria.

Conselhos?

Obrigada.



 "Almost Martyrs" - A Vida de David Gale.
Acabei de escrever um post dizendo como era triste não saber o que postar e acabei postando uma coisa bem interessante... Legal. ¬¬' Quanta contradição!

Tuesday, March 3

Ilusão?

Quando foi mesmo que achei que a vida dos escritores era divertida, e decidi por me tornar uma também, hein? Como foi que eu descobri mesmo que nasci para escrever livros?... Às vezes parece que tudo é muito fácil, mas a minha escolha é uma opção muito autoflageladora (e eu nem sei se é assim que escreve!).


Durante esses anos de escrita, descrições, narrativas (...), acabei chegando numas conclusões bizarras sobre esse processo criativo. Ontem à noite, fiz questão de enumerar e anotar algumas dessas enfermidades. Segue:

1) Todo escritor, ou sua grande maioria, cria mundos/universos onde gostaria de morar que não é o seu de origem (uma frustração);

2) Todo escritor, ou sua grande maioria, é solitário, e apesar da pouca aventura vivenciada, carrega mais dramas vividos que todo o continente africano;

3) Todo escritor, ou sua grande maioria, gostaria de ser o personagem principal de sua obra, mas não é, o que acaba gerando uma espécie de inveja psicológica que parte do próprio criador;

4) Todo escritor, ou sua grande maioria, atravessa inúmeras guerras internas – quando não estouram numa depressão filhadaputa, se transformam em ansiedade, insônia, dependência química (café e chocolates) ou alguma coisa no estômago (ex: gastrite);

5) Todo escritor, ou sua grande maioria, acha que a vida perde o sentido quando não está escrevendo ou produzindo... entra numa espécie de “nadismo negativo” da criatividade;

6) Todo escritor, ou sua grande maioria, sofrerá de amor pelo resto da vida. É uma droga que nunca parece fazer bem – se consegue a pessoa desejada, a vida fica certinha e sem graça; se perde ou não conquista, é àquela lamentação mortal;

7) Todo escritor, ou sua grande maioria, sonha demais, vive muito pouco, tem pouquíssimos amigos do peito ou que leriam suas histórias (de fato), mas geralmente gozam disso como se fosse a visão dos céus;

8) Todo escritor, ou sua grande maioria, não tem prazo para finalizar suas obras, é chefe de si mesmo e geralmente acha que nunca vai terminar o que gostaria de escrever;

9) Todo escritor, ou sua grande maioria, ganha muito mal e sonha com um lugar entre os dez mais vendidos no mundo;

10) Todo escritor, ou sua grande maioria, tem amnésia porque não está completamente fixado nesta realidade. Tudo que ele faz é especular como seriam as coisas se tivessem acontecido de maneira diferente (aí ele cria uma nova história...);

11) Todo escritor, ou sua grande maioria, sente necessidade de extravasar. Até dizem que vão fazer isso. Mas nunca o fazem. Sempre acontecerá uma coisa para impedi-lo;

12) Todo escritor, ou sua grande maioria, vive no blog ou no MSN, mas não está satisfeitos e a internet é uma dependência (codenome chatiação);

13) Todo escritor, ou sua grande maioria, sente a incompletude;

14) Todo escritor, ou sua grande maioria, acha que seus bichinhos de estimação são as únicas “pessoas” (é: “pessoas”!) capazes de entendê-los;

15) Todo escritor, ou sua grande maioria, poderia passar horas filosofando coisas estranhas – como gotas de chuva ou poeira (!) no reflexo dos raios do sol;

16) Todo escritor, ou sua grande maioria, sofre e se orgulha (em doses idênticas) de todos os defeitos que trazem em suas personalidades. Acreditam na importância deles para a trama da história que vivem neste mundo/universo em que foram inseridos... e se conformariam mesmo que o final fosse trágico, sem publicações nas prateleiras.