Thursday, July 30

Trinta e três para atrás


Ainda não tinha dormido na manhã daquele dia. Estava elétrica, a névoa se fora! Deixei a luz entrar pelos meus poros quando me joguei naquele verão particular.

Tive uma conversa ousada com o sol. Me ofereceu álcool! Antes mesmo de aceitar, senti o gosto do vinho. Fiquei trêbada. Não raciocinava, e nem queria, porque meu riso era perfeito e meus dentes rebatiam claridade.

E depois de tanto tempo, uma lembrança estranha - incompleta. De coisa-nenhuma que era alguém. E que passou antes mesmo de se formar - como um suspiro de tempo esvaído.

Ah, tirei a roupa! Tomei banho de chuva, assisti um besteirol, viajei e jantei fora, escrevi trinta – e – três – livros, andei com as mãos no chão, fiquei milionária! E amanhã?

Amanhã eu pretendo
repetir o que foi bom
e reinventar
o que não me satisfez.

Saturday, June 27

Entre as linhas

das palavras. Liberta.


Tinha fugido do sono. Como se não desejasse encarar o tormento da noite silenciosa - aquela que escuta todos os problemas que você não quer pensar, não diz absolutamente nada e, mesmo assim, parece dar os melhores e mais doloríveis conselhos do mundo.

"Considero injusto o caminho que algumas coisas seguem, porque é como uma consciência ignorante - nasceu uma árvore que só dava mangas murchas. Por que culpar o jardineiro que tinha esperança e quis tentar? Ou, por que sacrificá-lo quando se cansou de trocar o adubo e desistiu?"

Já no dia seguinte, fiquei recostada, olhando minha cortina azul enquanto abocanhava a tampa da caneta, imaginando o que iria pensar e dizer na linha seguinte. Me perdi fantasiando as entrelinhas de minhas próprias palavras. Como uma receita milagrosa, de - dentro - para - fora.



Se não quiser o bem, também não faça o mal. Welcome to my world! Se não aceitam, que se deixe em paz, Tormentos. Demônios.



Fuck It - Eamon

Friday, June 26

À caminho de Seiláoquê


Sabe a Névoa? Filha da Neblina, Irmã da Bruma, sobrinha do Calafrio, neta do Inverno?

Estou conhecendo...

Me sugou por inteira.

Até chegar neste ponto, foi uma dura batalha entre "voltar" ou "seguir em frente". Lembro que parei bem no meio e estiquei os braços para alcançar melhor os dois espaços.

O caminho por onde andei, de onde vinha, era aquecido, verão, ensolarado... A luz doía nos olhos de tão claro.

O lado para onde tinha que seguir era turvo, sombreado. Esfriava o tempo inteiro. Senti que enrijeceu meus dedos e meus cabelos. Embranqueceu minha pele, ressecou meu rosto.

Mas alguma coisa dizia que deveria continuar. Outras vezes, inclusive, amedrontada (porém curiosa) pulei fora e de volta para dentro do caminho de onde viera.

Queria muito ficar ali! E me plantei como árvore! Sabe? Tinha energia para viver bem! Por que me arriscar?

Criei raízes! E não pude fazer mais nada... Como uma história que ninguém mais escreve. Como um personagem atirado na lata do lixo. Como autora de meu próprio destino, simplesmente havia escolhido parar porque de onde vinha, o que vivera, parecia suficiente.

Mas não foi. A luz enfraqueceu, algumas flores dos arredores murcharam e comecei a perceber que a névoa estava se aproximando de mim porque ela queria me pegar de qualquer jeito. Pior que isso: ela tinha que me pegar de qualquer jeito.

Então entendi que não se tratava de mim... Nem daquela fase turva... Mas da minha estrada. Eu só tinha aquele caminho, aquela direção. E, num determinado momento, não conseguiria mais enganar meu destino.

Está muito embaçado. Tentei correr, mas não consegui (tudo bem, trata-se do tempo alinhado com o tempo).

Tem sido assustador. Mas, agora pouco, encontrei um arco-íris! Na ponta mais próxima tinha duas safiras no chão. Quando me baixei para apanhá-las, percebi que não eram pedras, mas os olhos azuis de Ramza (minha gata siamesa de estimação), que me acompanhava silenciosa e sorrateira.

Tenho medo do que vai ser e como vai ser, mas não estou sozinha e para além de "arriscar", foi necessário.

Friday, June 5

De lá pra cá?



Era desajustada. Tropeçava nas próprias pernas. As calças eram curtas e o cabelo desgrenhado. Algumas espinhas aparentes, óculos que não embelezavam e um coração envolto por camadas "inatravessáveis" (ainda que a expressão não exista, porque gostava de inventá-las).

Já amava as palavras, mas ainda era um sentimento involuntário. Depois, em contato direto com regras e formalidade, instalou-se o medo. Havia um universo capitalista regido pela disputa. De homens gigantes com passos largos, medonhos.

Escondeu-se debaixo da cama, estava muito assustada. Era presa fácil na terra de vilões. Chorou pouco tempo... Até resolver caçar também. Passou meses questionando o sistema... E não chegou a qualquer lugar.

Colocou as mãos na cintura, bateu o pé, franziu o cenho, viu que não estava onde planejara, apenas imitava a maioria – era arrastada diariamente pelo tempo.

Resolveu lutar contra a maré... Virou um peixe solitário, mas estava acompanhada por outras sardinhas e golfinhos que também nadavam sozinhos.

Na areia da praia, viu que o mar era uma miragem e estivera numa poça de lama – não havia oceano algum! E já crescera tão mais! O mundo ficou pequenininho, os monstros eram menores ainda, suas vozes inaudíveis.

A paciência foi o único verdadeiro preço pelo qual teve que pagar... Então, concluiu que nada realmente mudou no mundo, nas poças, nos vilões ou golfinhos... Seus mais profundos desejos é que cresceram demais... E absolutamente nada seria capaz de limita a realização deles.



Lara Fabian - qualquer música! AMO!
Venci um concurso de fotografia!

Thursday, May 28

Adormecendo...


Estou escutando a chuva lá fora... Imaginando pingos d'água se espatifando na saliência do mundo. Encaro o teto branco no escuro do quarto pouco iluminado e, sabendo que respirar é uma atividade involuntária, não me preocupo.

Então, recostada na minha cama, desapareço.

Parte de mim se desprende da escravidão racional. Meu inconsciente é sedutor, me droga, grita em silêncio, machuca sem dor, brilha sem luz.

Estou no devaneio. Aquela infinita gama possível. Me cega, me aprisiona de qualquer certeza, me enche de relativismo.

O terceiro estágio é faceiro porque você volta. A gente sempre retorna. Sabe dizer como foi, como atravessou a lógica e alcançou o inconsciente. Mas não entende como reverteu o processo.

E nem dá... Não racionalmente.

Você pode continuar tentando descobrir... Ou lembrar que a chuva parou, seu teto nem é tão contemplável assim e dormir parece uma ótima idéia... Ainda que não seja.



Ainda com Dancing - Elisa.

Friday, May 15

Filosofia da cortina


Você já reparou no segredo inalcansável? Aquele que se movimenta através da cortina, no arcaico cinema de sombras projetadas pela cidade, depois da janela, no mundo, para você!

Atinge as suas possibilidades sensoriais e é especialmente inquietante, chegando no sexto (sétimo?) sentido, brincando de cores numa tela revestida com pinturas dos dias anteriores.

Magia! - Com olhos iluminados, brilhantes.

Alguém já deve ter dito que o sucesso de uma estrela depende do adeus todo poderoso do sol... E assim valorizaremos a cortina! Aquele pedaço de pano, fechado, escondendo a luz, fazendo charme, burlando o cotidiano.

É melhor que assistir tv, ora essa! Se você cansa do canal daquele recorte da vida real, você procura outro lugar, outra visão, outras ventanias! Muda a paisagem, felicita pingos de chuva cor-de-cócegas que respingam do parapeito direto para o seu sorriso.

Ah, o teatro da vida! "Da janela para o mundo"!

Aplaudir o canto dos pássaros, franzir o cenho quando escutar uma péssima regência da orquestra de um trânsito parado... Analisar esta caótica organização universal...

Parei. Decisão tomada pelo tempo - esse indeterminado tempo.

...

...

...

Hoje não abri a cortina para ver a peça do mundo! A cortina se abriu para que o mundo assista a minha estréia.



Para escrever o post: Alone At Night - The Curious Case of Benjamin Button Soundtrack; porém, tem uma música que não me canso de ouvir diariamente - e que gostaria que aproveitassem também. Se chama Dancing - Elisa.
Recado: e não era medo. Precisava desafiar minha própria capacidade. Não que seja uma coisa de "ohhh!", mas é realmente importante ser melhor do que si mesmo. Não que esteja tentando imitar minha própria criatividade. Ainda prefiro o que me é competente como base para ser melhor do que sou... e ter "criativóides" como servos de meu desafio. (Se a carapuça serviu...)

Monday, April 27

Desculpe, travesseiro!


Porque estou mentindo para você

Fiz o percurso de sempre – chequei as novidades, desliguei o computador, coloquei minha gata na caminha, organizei meu quarto, tomei banho, escovei os dentes, vesti o pijama, deitei, rezei, agradeci e pedi proteção às mesmas pessoas, apaguei a luz e fechei os olhos.

Mas eu não estou dormindo e continuo brincando de caleidoscópio com minhas pálpebras. Não tenho muita luz disponível, parece até que a noite ficou mais escura, e o meu azul é praticamente imperceptível.

O tempo parou de correr... Você percebeu, travesseiro?... É como se estivéssemos no instante do soluço deste universo... E até que tentei recorrer àqueles outros, para me proteger, mas eu não consegui sair do canto.

A minha personagem está sem respirar... Pode morrer?... ...Escrevi-lhe uma carta, mas também não consegui me expressar como de costume, e vi que ela chorou... Estou desesperada! Meu coração está completamente descontrolado, desejando que o mundo possa retroceder apenas alguns dias para que desfaça uma estupidez, mas eu ainda não tive sucesso.

Você tem aquela pílula? Da memória? Para lembrar-se de tudo que eu já disse, de tudo que é verdade, de tudo que ainda existe? E será que dá para acrescentar, inclusive, uma nova informação? Ah, sim, novíssima: meu inconsciente é nazista. Juro! Tem a tradição de querer descartar tudo que é imperfeito.

Estou falando sério, travesseiro, preciso me lembrar de parar com isso porque, qualquer dia desses, ainda vou me encontrar numa lata de lixo. Adivinha só? Eu – sou – humana! Tudo bem que minha cegonha interplanetária me largou no planeta errado, mas todas essa mania de perfeição acabará me aniquilando também.

Me lembre que jamais deverei descartar qualquer coisa, antes de tentar consertar. Porque sempre doerá muito mais, descobri tarde demais, que o defeito não estava naquilo que eu tinha, mas na minha ignorância de não saber usar.

...

Ah, que bom, o dia nasceu... ...Não da maneira correta, você sabe... Porque também não dormi. Meu corpo já não é o mesmo, também... Minha vista exausta, cheia de expectativa, elétrica e tensa, agora vai precisar encarar o mundo e continuar fingindo que está tudo bem... E que fotografias e sorrisos falsos são a promessa de um futuro bom.

Até mais tarde.


Chantal Kreviazuk - Blue
"Onde estava a inspiração? Aquele enlevo que o fazia levar consigo no bolso um caderno de esboços. Parou de andar. Deu de frente com um espelho inverso e se analisou. Viu aspectos que nunca imaginara, ângulos que certamente ficariam obscuros até o infinito do caixão."
Trecho do texto de Contra o Tédio, homenageando diversos blogs, inclusive - que bom! -, o Espelho Inverso! OBRIGADÃO - adoreeei!

Saturday, April 4

"What if it all means something?"


A Chantal Kreviazuk é uma cantora que tem diversas músicas tocadas no decorrer das temporadas da série Dawson's Creek. No mês passado, comecei uma maratona revendo todos os episódios em sequência. Aí, bem, dia desses resolvi baixar um álbum dela no computador. É pop e suave. Muito agradável...

Eis que, ouvindo essa coletânea de músicas com o título do post, me questionei sobre isso, de fato. Afinal de contas, "e se isso quiser dizer alguma coisa?". (Qualquer coisa!)

De repente, essa frase foi um grande problema durante anos. As coisas, pequenas coisas, aconteciam e sempre achei que teriam algum significado. O tal do "nada é por acaso"... Inclusive, não deve ter sido a toa que fiz o documentário sobre a Teoria do Caos para concluir minha graduação de Jornalismo. Eu acho que eu queria me provar que tudo tinha algum sentido.

E tem. Só que independe, não está procurando beneficiar qualquer pessoa. Então, e aí, no mês passado, mutei. É sério. Menos espectativas, certezas de mim e nada mais. Do que vou querer colher, do que vou desejar alcançar, das pessoas que tentarei manter, dos risos que vou escolher gargalhar, das lágrimas que vou selecionar e derramar... Vai depender de mim.

Mesmo assim, no final das contas, eu acho que, pensar que tudo poderia querer dizer alguma coisa grande e importante, como parcerias (que não caminharam), amizades perfeitas (que se acabaram), sonhos (que decepcionaram), viagens e lugares (que não brilham diferente no sol), etc, etc, etc, valeram e "quiseram dizer alguma coisa": que nem tudo na vida segue o rumo ou tem a importância que a gente resolve dar. Então, a melhor coisa de qualquer novidade aparente é: cautela e paciência.

A esperança é, de fato, a última que morre, mas ela não deve ser o primeiro sentimento no impacto da novidade. "Cautela e paciência".



What if it all means something? - Chantal Kreviazuk

Monday, March 23

Viagem


Cursor piscando (já devo ter dito isso alguma outra vez)... Mão no lábio inferior, uma respirada consistente de quem se recupera de tosses e nebulização. Livros.

Poucos livros porque não adianta: gosto de protegê-los e mantenho guardado os que já foram lidos, fora da visão de pessoas que pediriam emprestado, longe da poeira, para não perder o cheirinho de livro.

De volta para o computador. E alguma coisa parece ter sido escrita... Deve dar umas dez linhas... Pela brecha da porta entreaberta do quarto, uma transeunte atrapalha meu raciocínio vez ou outra, mas eu não pareço muito interessada no que diz e acho que já não lembro de suas palavras.

Inspiro. Uma música de fundo. O painel azul, cheio de estrelinhas e papeis que não deveriam estar lá. Gata na brecha da porta. Siamesa, curiosa e assustada. Orelhas arrebitadas. E some.

Pausa para ler o que foi escrito. E gosto. Acho que vou continuar... A música termina e uma melodia suave já está nos meus ouvidos... Vou embora.

O lago brilha e existe uma névoa que realça os raios do sol que atingem essa natureza verde. Poderia ter asas, mas ainda prefiro evitar mudanças. Estou ferida, machucada, mas pareço saudável. Meus olhos não conseguem abrir direito. Tento me levantar e o corpo inteiro dói, feridas ardem. Tenho ataduras, minhas vestes estão sujas de sangue e meus lábios ressecos.

Meu cabelo parece não saber o que é um pente há um bom tempo e descubro que não estou sozinha. Olhares diversos, olhares coloridos, olhares amáveis parecem felizes por estarem me vendo gemer.

Não consigo respirar fundo como antes e acho que alguém pronuncia alguma coisa sobre "costelas quebradas". Mesmo assim, já estou sentada, enchergo meus pés com certa dificuldade e não entendo nada a minha volta.

Um cheiro doce... e quente...



Eu não quero voltar.

Adeus.



Forgiven - é tudo que sei. Eu acho que essa trilha sonora que baixei é uma reunião de várias músicas de trilhas distintas. Foi graças a ela que o post saiu.

Saturday, March 21

Passaria


o resto da minha vida,
nessa inútil posição semi-catalepsia.

Um braço dobrado,
onde apoio a cabeça
e distancio o alcochoado.

O outro comprime a passagem do pensamento,
impede a visão do quarto escurecido,
estou quase vazia de sentimento.

O joelho esquerdo pressiona
a coxa direita
que não movimenta, nem impressiona.

Estou doente.
Morrendo?
Dormente!

Apague a luz,
porque não desejo
nem azuis.

Feche a porta
e não faça barulho
porque é pedaço de gente esse entulho.